Blog do Marcão







28/02/2007 00:56
Detalhes de Roberto Carlos em Detalhes


A presença de Roberto Carlos na mídia no fim de 2006 foi além do especial da Globo. Dias antes, o historiador e jornalista Paulo César de Araújo, 44 anos, lançava o livro Roberto Carlos em Detalhes (Editora Planeta, 504 páginas, R$ 59,90), fruto de 15 anos de pesquisas – 13 por conta própria, o que lhe custou a perda de um emprego, a privação da família e um processo do próprio Rei. Mas quando perguntado sobre o resultado, Araújo nem pensa em arrependimento. “Se a obra dele não fizesse parte da minha vida, não teria me dedicado assim.”

A estrada do livro ainda não foi totalmente percorrida, já que semana passada o cantor ganhou na Justiça o direito de retirar a obra das livrarias – antes, no dia 7 de fevereiro, Araújo havia obtido uma decisão favorável, derrubada por essa nova. Em entrevista concedida a mim originalmente pelo jornal Gazeta do Povo antes de ambas as decisões, Araújo fala de todas essas dificuldades para concretizar não um livro, mas sim um intenso projeto de vida em que demonstra todo sua admiração pela obra de Roberto Carlos – o que o próprio Rei não percebe porque, apesar de conseguir tirar a obra das estantes, confessa não ter lido o livro de sua própria vida. Coisas de Roberto...


Marcão - Como surgiu o livro?
Paulo Cesar de Araújo - Tive a idéia em 1990. Eu estava ainda na faculdade, de Comunicação e História. Fazia as duas ao mesmo tempo. Nesse ano eu decidi fazer uma grande pesquisa sobre a história da Música Popular Brasileira e já pensando em futuros trabalhos. O primeiro que me veio à mente foi o Roberto. Claro que na época ainda não estava definido se seria sobre a jovem guarda, a discografia. Isso foi sendo definido ao longo do tempo. Aí comecei a entrevistar os principais artistas da música brasileira. Entrevistei o Tom naquele ano de 90, entrevistei o Caetano, o Chico, o Milton. E ao mesmo tempo tentando entrevistar o Roberto Carlos. Depois de um certo tempo eu passei a entrevistar todos os compositores que fizeram música para ele, os músicos dele. No meio do caminho surgiu a idéia do outro livro, o Eu não sou cachorro não (nota: sobre a música brega no período da ditadura militar). Essa pesquisa ocorreu em paralelo porque eram temas correlatos e da mesma época, os anos 60. Enfim, trabalhei nesses 15 anos de pesquisa sem parar no tema Roberto Carlos. E eu só quis publicar o livro quando tivesse as respostas para todas as questões que considerava importante sobre esse tema. Por isso esse livro não foi publicado nem com 5 anos de pesquisa, nem com 10, nem com 12. Por isso é que eu levei esse tempo todo.

E como você chegou nessas questões. Como essas questões foram levantadas?
Isso foi ao longo do tempo. Primeiro constatei que na época havia uma total ausência de Roberto Carlos na historiografia da música brasileira. Eu considerava uma lacuna, dada a importância do Roberto, já naquela época com três décadas de absoluto sucesso. E não tinha um livro. E ao longo do tempo as perguntas foram sendo formuladas e respondidas. Foi tempo de pensar mesmo. Esses 15 anos não foram só de pesquisa, mas de reflexão sobre a obra do Roberto também. Por exemplo, a relação do Roberto com a bossa nova, eu quis responder isso. O que havia sobre isso no livro do Ruy Castro (Chega de Saudade) não me deixou muito satisfeito, a passagem foi muito rápida no livro. Dada a importância dele, merecia uma importância maior e eu tinha que responder isso: o impacto do Roberto na MPB, a questão do tropicalismo...

Como era sua rotina durante a pesquisa? Nesses 15 anos você lançou outro livro com uma pesquisa profunda e teve uma filha, tudo isso sendo professor da rede pública de ensino.
Esse livro foi feito nos intervalos. Sou professor da rede pública do estado e era da rede pública municipal do Rio. Então tive que trabalhar nos intervalos de aulas e fins de semana. Então muitas vezes eu saia do trabalho, ia para a Biblioteca Nacional e ficava lá até fechar, às 20 horas. Professor tem dia que dá aula, tem dia que não dá. Então fui intercalando isso aí. Viajava quando era necessário para entrevistar alguém, ia para o interior de São Paulo, Santa Catarina. Fiz uma pesquisa autônoma por 13 anos. Eu mesmo pesquisando por minha conta. Até que em 2003 a Editora Planeta me chamou para publicar o trabalho. Mas foram 13 anos de forma autônoma, nessas condições. Eu era professor da rede estadual e municipal, mas chegou um momento que eu não pude mais conciliar tudo por causa da pesquisa. Aí pedi exoneração do município em 2005. Ficou complicado. Tinha que redigir o livro, tinha um monte de informação e a coisa não estava dando, tinha que sair correndo de uma escola para outra... Tentei pedir uma licença, mas o prefeito César Maia não me concedeu, quer dizer, me concedeu por seis meses. Aí pedi mais seis meses, expliquei tudo numa carta que estava fazendo a pesquisa sobre o Roberto Carlos. Aí, não liberaram e eu tive que pedir exoneração do município.

Ou seja, você ainda teve prejuízo?
Claro. Perdi uma fonte de renda, mas eu tinha que optar. Ou eu terminava o livro, que era um projeto de vida para mim, ou continuava no município. Isso mesmo com o pessoal dizendo que eu estava fazendo uma loucura, que eu estava abrindo mão de uma estabilidade. Aí falei, nesse ritmo agora ou vai ou racha. Tinha pedido essa licença, que seria sem rendimento, mas não foi possível. Por isso agora só estou no estado. Agora tenho que arranjar outro trabalho, outra escola para dar aula.

Como era o seu dia de trabalho?
Dava aula no município de tarde, às vezes de manhã, e à noite. Dava aula quatro vezes por semana à noite. Nos outros dias, saía umas 17h40 da escola e ia para a Biblioteca Nacional. Eu ficava lá até fechar, às 20 horas. Pesquisava umas três horas e meia por dia, umas duas ou três vezes por semana. Sempre nos intervalos, nas brechas. As viagens eu deixava para finais de semana e feriados. Localizava um personagem do livro e já combinava com a pessoa “olha, vai ter um feriado na sexta-feira, eu vou aí e volto no outro dia”. Mas fiz tudo sem pressa. Por ser um livro feito a longo prazo, eu consegui 200 entrevistas exclusivas.


Crédito: Divulgação/Editora Planeta
Paulo Cesar de Araújo: 13 anos de pesquisa por conta própria.


Até que ponto o lado fã pesou para você concluir a pesquisa?
Pesou de uma forma intensa. Se eu não admirasse o Roberto, se a obra dele não fizesse parte da minha vida eu não teria dedicado 15 anos. Esse livro é resultado de dois fatores: inquietação intelectual, pela lacuna na historiografia, eu como historiador identificando isso, e a questão afetiva, que eu relato na introdução. São coisas da minha infância e o Roberto atingia todas as classes sociais, inclusive as crianças. E eu era uma delas.

Sua mãe escutava Roberto?
Não só ela, mas todo mundo. Não só em casa, mas na rua o rádio ligado o tempo todo, era uma coisa que estava no ar. Era uma coisa que estava impregnada, não tinha muito como escapar. Era uma coisa natural mesmo. Cresci ouvindo Roberto. As primeiras canções que me lembro são do Roberto, essa é a minha lembrança de infância. Depois com 9, 10 anos, indo para a porta do show, assistindo os filmes quando passavam lá no cinema da minha cidade.

E o fato do Roberto em 15 anos nunca ter dado entrevista. Você falava que era para o livro e ele já não topava naquela época?
Eu tentei normalmente, assim como tentei o Tom Jobim, o Caetano, o Chico. Eu era estudante na época, na primeira vez que tentei em 90. Me identificava como estudante de Comunicação que estava fazendo uma pesquisa sobre a música brasileira. Não tinha editora, não tinha nada. Era a mesma coisa que eu dizia para o Tom e para o Chico. Com o Roberto eu tentei por 13 anos, falando com secretários, empresários... Tenho aqui recortes, respostas, bilhetes “olha, infelizmente não dá”... Tudo arquivado. Claro que ele não diz que não dá entrevista. Eles dizem, e é o correto, que o Roberto está viajando, está gravando... Não falam que ele não dá entrevista. O Roberto não diz não, eles dizem que não pode. Em 2003 eu fui no escritório do Roberto com um representante da editora dizendo que sairia o livro. E ficamos aguardando uma resposta. E assim se passaram 15 anos. Não houve em nenhum momento um não. Houve que ele não poderia dar entrevista ainda. O que é compreensível, pois muita gente tenta entrevistar o Roberto. Não sou só eu, há outros jornalistas. No meu caso deve ser Guinnes Book porque são 15 anos, era um projeto de vida. Ninguém fica 15 anos. Ele não atendia os outros também, mas esses foram passando e eu sempre estava tentando.

Então você acredita que não foi nada pessoal?
Claro. Não tem nada de pessoal. É difícil entrevistar o Roberto. Talvez seja mais fácil para o cara da Globo, com quem ele tem contrato, então todo ano ele dá uma entrevista para o Fantástico ou o Vídeo Show. Mas fora isso, principalmente a partir dos anos 80, é difícil mesmo.

Como foi esse trabalho de garimpo, de encontrar pessoas que foram ligadas ao Roberto Carlos mas que estão sumidas? Pessoas que tiveram contato com ele há 30, 40 anos atrás e que não se ouve mais falar?
Isso foi dificílimo. Principalmente os compositores dos anos 60: Edson Ribeiro, Helena dos Santos, que era um pessoal que já estava fora do mercado há muitos anos, ninguém mais tinha contato com eles. Ninguém tinha os telefones deles e alguns nem telefone tinham. Vou dar um exemplo, para encontrar a Helena dos Santos. Tinha uma pista de que ela estava morando em Madureira. Aí eu ia lá num final de semana e procurava “a senhora conhece uma mulher que fazia música para o Roberto?” “Ah, ela morava aqui, nessa casa, mas se mudou faz dois anos. Foi para Bangu, perto de um bar”. Aí lá ia eu para Bangu. Chegava lá, o pessoal me disse que ela morava lá mas foi despejada. Aí fui em mais outros lugares até chegar em um condomínio em Cidade de Deus, onde ela estava morando. Edson Ribeiro mesma coisa. Houve essas dificuldades. Eram pessoas do Rio, mas do subúrbio e que ninguém mais tinha contato.

Você gastou muita sola de sapato pra achar esse pessoal então?
Muita. Só eu sei as esquinas que passei para registrar esse livro. E tem aquele pessoal que não gosta de dar entrevista. Caso do Evandro Ribeiro, que foi produtor do Roberto Carlos. Ele deu um depoimento fundamental, mas ele não dá entrevista para ninguém, não queria falar. Achei o nome dele na lista telefônica. Por sorte eu liguei e era ele. Mas aí fiquei seis meses para ele me receber. Dizia que já tinha saído da CBS e não tinha nada a falar. Eu já sabia que ele era assim. Aí tentava de volta. No outro mês ligava, no outro mesma coisa. Aí ele foi percebendo que o trabalho era sério. Tive essas dificuldades. Outra personagem importante, Edy Silva, não estava morando nem no Rio e nem em São Paulo, estava em Santa Catarina. Aí ela “se você vier aqui eu te dou essa entrevista”. Peguei o ônibus e levei 18 horas para ir e 18 horas para voltar de Joinville. Saí daqui sexta à noite, cheguei lá sábado, entrevistei e voltei sábado à noite mesmo. E ela foi uma pessoal fundamental para o livro, pois ela era a divulgadora do Roberto no começo da carreira.

E esse pessoal está envolvido ainda no meio artístico?
Não, não têm mais contato nenhum. Levam vida normal. Quem soube administrar o dinheiro está melhor, quem não soube está na pior. Outros já morreram. Muitos dos que eu entrevistei já morreram nesses 15 anos. A Helena dos Santos já morreu, o Edson Ribeiro, o Evandro Ribeiro, Carlos Imperial, Tim Maia... Mas como comecei em 90, ainda consegui pegar muita gente viva. Infelizmente depois partiram. Se eu fosse começar hoje a pesquisa, metade desse elenco já estaria fora das entrevistas.

Dava para fazer um livro da forma como você fez esse livro...
Ah, dava. Dá para contar a história em outro livro. E dá um livro emocionante, porque é muita coisa. Só essas tentativas de entrevistar o Roberto... Minhas idas aos shows, na porta do Canecão, das coletivas...

Você tinha que se esconder nas entrevistas coletivas para os agentes do Roberto não te acharem?
Eu nem recebia convite para as coletivas. Mas eu tentava me infiltrar de todas as formas. Ficava escondido, pelos cantos. Tentava falar com a assessora de imprensa dele, mas não fui muito feliz. Uma epopéia! Sem falar a vida pessoal. Deixei de fazer muitas coisas, nos fins de semana com a família...

Por que havia esse vácuo sobre a obra do Roberto Carlos na historiografia nacional?
Primeiro quero dizer que ainda há muito pouco sobre esse tema. O meu trabalho é apenas o começo. Tem o trabalho do Pedro Alexandre Sanches (Como Dois e Dois são Cinco), publicado em 2004. E dada a importância do Roberto Carlos isso é muito pouco. Nós estamos apenas começando isso. A história do Roberto é um universo muito grande, que dá pano pra muita manga. Eu dei a minha contribuição, o Pedro Alexandre deu a dele...

Mas a que se deve isso?
A dois fatores fundamentais. São mais de 350 livros sobre o Bob Dylan nos Estados Unidos. Na Inglaterra são centenas de livros sobre Beatles. Na Argentina existem livrarias que só vendem livros de Carlos Gardel. Embora o Roberto seja o correspondente brasileiro desses fenômenos, não tem a mesma quantidade de livros. Por dois fatores. Primeiro, como explico no outro livro, Eu não sou cachorro não, as elites culturais sempre viraram as costas para essa produção não identificada à tradição do samba e nem muito com a modernidade. Logo, as elites culturais sempre viraram as costas para Roberto Carlos. Isso é fato. Como são as elites culturais que escrevem livros, Roberto não foi contemplado. Aquela massa de brasileiros que ama e compra os discos de Roberto não pode escrever um livro porque vivemos num país com baixa nível educacional. O povo brasileiro não tem hábito de leitura. Se tivesse uma educação de qualidade, como na França, Estados Unidos e até na Argentina eu não tenho dúvida nenhuma de que com 40 anos de sucesso haveria 300, 400 livros sobre Roberto Carlos. Por isso meu livro vem contra tudo isso. No meu caso, eu sou representante desse povo brasileiro. Com muita dificuldade cheguei à universidade, pesquisei e concluí o livro. Fui contra tudo e contra todos. E não é de agora com a dificuldade de escrever o livro. Tive dificuldade em chegar a pensar a escrever o livro.

Como foram essas dificuldades na sua vida?
Eu trabalho desde os oito anos de idade. Trabalhei de tudo: engraxate, em feira, fábrica. Certa forma sou uma exceção no contexto brasileiro. Para poder chegar à universidade, foi uma luta. Tive que estudar sempre à noite.

Você foi para o Rio com a família?
Minha família foi para São Paulo primeiro. Baiano vai para São Paulo. O Rio foi uma curva no percurso. Com 16 anos cheguei a São Paulo para tentar uma vida melhor, como retirante mesmo. Primeiro foi minha mãe e depois fui eu. Como tinha ido meu avô, meu tio, toda a família foi para São Paulo. Depois de cinco anos vim para o Rio. Estou aqui há 20 anos. Foi uma vida de retirante literalmente.

Os artistas diretamente ligados ao Roberto Carlos aceitaram dar entrevista para o livro?
No início sim. O caso do Erasmo Carlos houve dois momentos. No início da pesquisa eu o entrevistei sem maiores dificuldades. Agora na reta final do livro eu tentei retomar algumas entrevistas, como com o Erasmo. Com o Caetano e a Maria Bethânia eu consegui outra entrevista agora no fim. O Erasmo não. Ele não quis mais dar entrevista. Ele mandou um e-mail dizendo que preferia não se envolver mais. Disse que gostou do outro livro e me desejava sorte, mas preferia não dar mais depoimento. O argumento era de que se o Roberto não deu depoimento ele também não iria mais dar.

Aí já deve ter uma influência do Roberto...
Não sei. Ele só falou que achava que não deveria mais dar entrevista. Se eu tivesse deixado o Erasmo para o final, teria ficado sem o depoimento dele.

E a questão do processo, do Roberto dizer que vai tirar o livro das livrarias?
O processo já está em andamento. Eu uso o Roberto de fio condutor para contar a história da música brasileira. Cito jovem guarda, samba, ditadura militar, bossa nova, tropicalismo, enfim, o Roberto é o fio condutor. Trato o Roberto como personagem da história do Brasil, que é o que ele é, além de artista. Escrevi sobre ele como poderia escrever sobre Lula, Fernando Henrique Cardoso, enfim, um personagem da história. Gente que tem um papel na sociedade. Fiquei surpreso com a reação dele. Claro que também não esperava que ele fosse fazer propaganda do livro. Eu sei que ele é todo cuidadoso com as coisas. Pensei que ele ia agir como com o livro do Pedro Alexandre Sanches, não se pronunciar. Nem disse que gostou, nem disse que não gostou. Imaginava isso.

O que você acha que o irritou no livro?
Não sei. Ele não especificou ainda. O grande problema para mim é que ele não leu livro. O advogado dele falou isso em entrevista. Só assessores mais diretos leram o livro. Para mim essa é a grande questão. Imagine que alguém condene um disco do Roberto, taxando de apelativo, mas sem ouvir o disco. É a mesma coisa. Fica difícil fazer uma avaliação. As pessoas estão gostando do livro, os grandes jornais e revistas estão elogiando. É um tributo ao Roberto, não há sensacionalismo, ele sai maior no livro. Nelson Motta disse isso, Arthur Xexéo, a Veja, Folha de São Paulo... Então não é possível que o mundo inteiro esteja enganado. Talvez se ele tivesse um tempo para ler, porque ele é muito ocupado... Tinha essa esperança, de quando ele parasse para ler o livro... O fato de ele não querer dar entrevista é um direito dele. Como também não tem obrigação de gostar do livro. Só lamento que tenha ocorrido isso. Os fãs estão gostando. Se eu tivesse errado a mão, não precisava nem ele dizer, os próprios fãs reagiriam, porque o fã reage mesmo quando o ídolo é mal-tratado.

Qual é a média de mensagens que você tem recebido por e-mail por conta do livro?
Uns cinco e-mails por dia, por aí. Gente do Brasil inteiro, Amapá, Porto Alegre, Nordeste. Até internacionais, do Uruguai, do México.

Qual vai ser o próximo livro?
Penso em um mais geral, uma síntese da MPB. Dessas 200 entrevistas não deu para usar tudo. Talvez venha aí um terceiro livro, uma trilogia, numa síntese da música brasileira. Mas ainda não tive tempo para pensar nisso. Não tive nem tempo de botar a minha vida em ordem e ainda tenho o processo aí.

Por que o Roberto Carlos influencia a música, como bandas de jovens que nem viveram o auge dele, até hoje?
É a perenidade do trabalho do Roberto. É uma obra como dos Beatles, obras fundadoras e marcantes. Por isso são clássicos, assim como os livros clássicos, os filmes clássicos. A obra do Roberto é um clássico na música brasileira. O Roberto estruturou o pop brasileiro. Não começou com ele, mas foi com ele que se consolidou. Ele influenciou toda a música brasileira, mudou o rumo dos acontecimentos. Como eu escrevi no capítulo MPB, a eletrificação da música brasileira não foi feita pela tropicália. A tropicália apenas continuou, porque na base, internamente, já estava sendo eletrificada. Como o Zé Ramalho na Paraíba, Fagner no Ceará, Luiz Melodia no Rio. Todos influenciados por Roberto Carlos, o rock de uma maneira geral. Isso em 66, 67. Quando o tropicalismo chegou vai apenas em nível da MPB consolidar isso. A influência vem disso tudo. É um clássico. Às vezes a fonte nem é direto com Roberto. O cara pega de outro artista que teve o Roberto como fonte. São obras fundadoras, definidoras, como Beatles, Elvis. Os disco do Roberto de 69, 70, que é a grande fase dele, são atuais ainda. Foi nessa virada de década que ele criou sua obra definitiva.

Qual sua música preferida do Roberto?
Eu sou muito de momentos. E no momento é “Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”. Eu ouvia muito na minha infância. Tenho ouvido bastante e sempre me emociono.

Você lembra a primeira música do Roberto que ouviu?
Lembro, foi na época de Natal, tinha um papai noel na loja. Tinha 4 anos, era Quero que vá tudo para o inferno. A música é de novembro de 65 e tocou muito. Lembro de estar na rua e a música tocando nas ruas, vinda das lojas.


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